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domingo, 21 de junho de 2009

Criminalidade sinônima de vaidade humana


O aumento da criminalidade a partir de situações inexplicáveis, como filhos matando pais, mães roubando filhos, ações terroristas em vários pontos do mundo, além de crianças matando e espancando pessoas em escolas, leva-nos a questionamentos que rondam desde “de quem é a culpa” até “o que está acontecendo com o mundo”.

Mais importante que encontrar as respostas, são fazer as perguntas, pois elas nos levarão a refletir, e nesse momento é possível um levantamento de toda a problemática e situação que vivemos. Além de procurarmos saídas, há a possibilidade de refletirmos o nosso papel nesse panorama.

As justificativas para o aumento da criminalidade são as mais variáveis: evolução tecnológica, desemprego, falta de oportunidade, sucateamento da educação, aumento do consumo de drogas, até mesmo a proliferação de igrejas, ao passo que o papel da igreja ( religião) diminuiu na formação da moral e da ética, diferentemente de hoje em dia, na qual mascara a vaidade humana.

Nem todo o avanço da ciência consegue gerar tamanha influência que a igreja tinha sobre as pessoas. O cometer um crime no passado significava muito mais do que hoje, pois essa mesma ciência que desmistificou a religião deixa brecha nas leis para punir criminosos, os mesmos que quando presos pagam fiança, ou conseguem uma autorização de internamento em hospital psiquiátrico, que por sua vez sofre todo um desprezo e sucateamento por parte das autoridades governamentais.

Se formos observar o perfil de criminosos, o discurso deles sempre ronda a falta de oportunidade e o desejo de uma vida melhor de forma fácil, não importando que para isso tenham que realizar alguma atividade lícita ou não. A Igreja impedia essa vaidade de querer sempre mais em benefício próprio, e não do coletivo, ou pelo menos o necessário para a sobrevivência.

Óbvio que no passado também havia crimes, e os motivos eram traição, passionais, em guerras de poder, todos movidos pela vaidade, mas sem ser uma avalanche que atualmente assistimos.
Houve uma perda de referencial e objetivos tanto da religião quanto da ciência. Sendo assim não há leis e segurança que impeça o avanço da criminalidade, se a ciência continuar a ser utilizada para atender à vaidade humana e as igrejas continuarem a ser mercantilista.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Ao meu redor... só incoerências

Chego à janela e observo tudo ao meu redor.

Um homem na rua vira uma massa de concreto alheio ao frio da manhã. Enquanto o dono da obra o trata com indiferença, austeridade e desprezo, sem se dar conta que depende daquele homem para construir sua casa, para ele morar com sua jovem esposa.

Uma jovem passa apressada ao som do toc toc do seu sapato, se não a visse saindo de casa, certamente acharia que ela estaria chegando de uma noitada, tamanha era a quantidade de maquiagem no rosto. Seus dezoito anos se transformaram em trinta rapidamente.
Pássaros tentam entoar uma canção alegra, mas os gritos de estudantes pedindo melhorias no ensino os emudecem.

Ao longe ouço o barulho de uma ambulância, mais um acaba de falecer, talvez sem os cuidados, pode ter procurado ajuda e esbarrado em mais uma greve, falta de vagas ou até negligência.
Uma criança brinca na rua sem temer o futuro, se é que o futuro dela não chegue com mais uma bala perdida.

Fecho a janela na busca incessante de me proteger, mas a violência está em todos os lados, na mentira das novelas, nos absurdos da rádio, ou nas ondas da Internet.

O livro é meu consolo, lá posso ler o que eu quero refletir, viajar, sem riscos e sem pesadelos reais. São livros de autores de outras épocas, épocas de clamaria, épocas de cultura valorizada, na qual se aprendia por prazer e não por cumprimento à ordem social.

A noite cai e ao olhar da janela nada mudou, tudo se reafirmou, um carro parado à paira do caminho com um homem baleado, policiais tentam impedir a aproximação de curiosos que questionam se foi assalto, ou puramente execução. Já não importa mais, foi-se mais uma vida.

No outro canto da cidade uma jovem é violentada por vizinhos e namorado, ou seria mais uma a mentir para se proteger das ameaças e tiranias dos pais, que teimam em fingir com falsos moralismos. E nada acontece com quem compartilha desta mentira de estupro, afinal o dinheiro paga e apaga tudo.

Onde está o pai que deixa uma criança de 13 anos ir a festas sozinha, que nem mesmo ele sabe onde é ou quem vai. A mesma criança que não gosta de ser chamada de tal, e sim pré-adolescente, que não quer responsabilidades em casa, quiçá com estudos, que troca os livros por uma badalação, acaba na Internet flagrada em cenas de drogadição e estupro.

O pai indignado pede providências à polícia, e esta nada pode cobrar desse pai, enquanto isso os pais de acusados de estupro, jovens e menores, falam que seus filhos tem mais que sair e se divertirem, os demais que segurem suas cabras em casa, pois o bode dele está solto.

Em um canto da delegacia uma mãe chora, chora o sumiço do seu filho depois que foi abordado por policias, por ele ser negro e humilde o fato não ganha notoriedade nos grandes noticiários.
São apenas cenas da vida, cenas do cotidiano: crimes, preconceito, falsos julgamentos, hipocrisia e realidade.

Mas já é hora de dormir, e quem sabe sonhar com um futuro mais cultural e menos criminal. Talvez nesse futuro as páginas dos livros não tenham mais opção a não ser a realidade de hoje, se ainda insistirem que o maior problema do país são as leis.

De uma palestra ao pensar


Quando cheguei ali à frente daqueles alunos para apresentar um estudo que havia realizado vi olhinhos esperançosos que eu desse a fórmula mágica para acabar de vez com os hospitais psiquiátricos, ou quem sabe que eu falasse sobre os cuidados da enfermagem para com pessoas acometidas pro transtorno mentais.

Iniciei a minha fala mostrando uma série de personalidades que tinham transtorno mental e nem por isso deixaram de ganhar prêmios, de serem reconhecidos por seus trabalhos, e não pela sua doença que foi mero detalhe para contextualizar um sistema falido.

O que tentei mostrar ali não foi que uma pessoa pode superar uma doença, qualquer que seja ela. Tão pouco tentei mostrar o sucesso dos serviços substitutivos. Com exceção a mim, só mostrei pessoas de talento, famosas, nem sempre artistas, porém acometidos por transtorno mental, cujo tratamento não foi diferente de uma internação psiquiátrica, em hospital especializado.

Com isso, provei que o hospital psiquiátrico nem sempre é segregador, nem sempre é cronificante. Não é impondo um talento que ela desenvolverá alguma habilidade ou talento, mas lhe oferecendo um ambiente propício, com respeito, ética, sem preconceito, ou imposições.

Discursei sobre a realidade, sobre a falta de integralidade, do despreparo, da implantação de uma sistema em saúde mental baseado em outra realidade, uma realidade estrangeira, que nem mesmo lá com o avanço organizacional na saúde deu resultados satisfatório, e fiz a reflexão: será que com nosso sistema de saúde ( em geral0 fragmentado, sucateado, as novas propostas darão resultados positivos?

Ao final as perguntas foram suspensas por questão de tempo, e quem quisesse tirar dúvidas foi dado o meu contato. Durante um intervalo no evento, sentei-me na cantina, pedi um chocolate quente, estava bastante frio, e fiquei ao longe pensando no que tinha acontecido, quando uma turma de estudantes me abordou, querendo algumas respostas, alguma orientação.

Desejavam atuar na área de saúde mental, mas não sabiam onde e nem como, e depois do que eu havia falado estavam ainda mais na dúvida. As perguntas que me faziam, variavam desde como poderiam ajudar a Reforma Psiquiátrica, até o que poderiam fazer para ajudar os doentes em si.

Na hora eu respondi que para ajudar era preciso primeiro: vontade, e não apenas tentativa de se inserir em uma novidade, em discurso de autonomia profissional a partir da proposta de equipe multiprofissional. Depois ter respeito, não tentar impor nada, nem mesmo uma reforma. E se queriam algo realmente novo, seria ajudar os familiares, pois estes sim, estão desorientados diante da imposição da reforma a eles. Afinal cuidar de um ente querido não é peso nenhum, mas arcar com despesas de tratamento, continuidade do mesmo, e viver na ameaça de um surto em decorrência a uma não assistência fora dos hospitais, é , sem dúvida, a maior dificuldade enfrentada por eles.

Hoje continuaria com a mesma resposta, no entanto acrescentaria que para ajudar a reforma psiquiátrica, seria acabar com essa proposta, e lutarem pela reforma na saúde, consequentemente isso abrangeria as especializações, então a reforma seria mais coerente com as políticas de saúde que temos atualmente que zela pelo coletivo, pelo universal, o integral.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Do que aprendemos com Buda

Buda tem um ensinamento que os diz que se precisamos de algo, devemos doar esse mesmo algo a outrem, ou seja, se desejamos ajuda, devemos ajudar outras pessoas primeiro.

Há dias atrás eu escrevi um texto criticando as comemorações da Luta antimanicomial, principalmente na cidade de Juiz de Fora, o texto, certamente como toda a crítica, incomodou algumas pessoas, as quais perguntaram se eu precisava de ajuda.

Na hora dei uma resposta irônica, devido tamanha indignação que fiquei, mas esqueci-me de pensar nesse ensinamento de Buda, e acreditei que queriam me calar, que queriam realmente me tratar por me acharem louca.

Quanta arrogância da minha parte! Fui incapaz de perceber um pedido de ajuda, para que a coragem que eu, o pai desesperado pelo tratamento do filho, ou que tem o filho desaparecido por um surto provocado pro falta de medicação que não tem nos postos para fornecer e nem ele para comprar, tivemos em não nos calar diante da realidade do caos que a reforma psiquiátrica traz a cada dia.

Se há erro em lutar por um reforma que na verdade é um retrocesso em termos de saúde em geral, e da realidade de doentes e familiares, há a possibilidade de acertos. E a orientação dou agora, impossível se pensar do individual para o universal, enquanto o universal está totalmente fora de sintonia com o individual, por isso é preciso coragem de lutar pela vida, por reformas coerentes com nossa realidade e não a um projeto já fadado ao insucesso desde às suas origens.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Entre os extremos o vazio.

Não há dias nublados, há dias negros. Quando o sol resolve aparecer pode trazer estragos: a insolação pode se traduzir em manias, dívidas, medos, ansiedade, hiperatividade, como se o sol fosse único e os dias negros não aparecessem.

Uma frase pode acabar com um dia, um ato com uma amizade e uma cena com a vontade.
A mistura de sensações vai desde a compulsão alimentar até uma falta de apetite, quem sabe anorexia.

Em determinada hora os segundos passam feitos meses, e na hora seguinte parece estar em um trem de metrô em movimento, daqueles que se olha o pichado das paredes e só de vê algo correndo.

Às vezes tentam ser Indianas Jones, que todos veem, que fazem com que sejam percebidos, em outros são Rubem Fonseca, passam quase que anônimo, mas sabemos que existem.

Em determinados momentos quer os pés no chão, em outros tantos quer voar, afinal pra que pés no chão se todos querem voar?

Confundem-se explicando demais, ou peca por se ausentar de explicações. Choca de qualquer maneira, ou por ser realista, ou por ser futurista.

Podem se fazer de super-herói, quando na verdade querem ser salvos. Podem funcionar apenas com provocações, como podem se anular.

Esse vazio entre extremos que vive uma pessoa com transtorno bipolar de humor, o que muitos adoram chamar por ai de mania do momento, doença da moda, ou simplesmente “piti”.

Agora tente viver em extremos com vazios entre eles.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Hipocrisia falarmos de qualidade x produção?

Recebi um comentário muito interessante, no qual o autor do mesmo diz acreditar ser hipocrisia falar de humanização, qualidade e produção.

Bem concordo com a opinião dele do prisma exterior ao sistema, de não pesquisadora e apenas profissional da saúde. Mas seria hipócrita se eu não usasse meus conhecimentos, experiências e pesquisas para afirmar tal fato.

Todo e qualquer trabalho, exceto os voluntariados, é baseado em produção, e nem por isso é feito com falta de qualidade. Vejamos uma fábrica de roupas de alguma grife famosa: ela produz, com qualidade e seus funcionários são cobrados por produção sim, nem por isso a qualidade é esquecida.

O mesmo acontece na enfermagem, conversar com o paciente não é humanizar é das funções do profissional, é ético, e é produção. De uma conversa pode-se tirar tanto informações para o projeto terapêutico do mesmo, quanto informações do meio.

Vejamos um exemplo prático: O Programa Saúde da Família. É essencialmente pautado em produção, se você estipular um número menor de atendimento do que se espera, não é nenhum crime, e mesmo que no início você sofra pressão, é preciso confirmar posteriormente os resultados positivos dessa prática.

Lembro aqui quando cheguei a um PSF para atuar como gerente. Da proposta só havia na verdade agentes comunitários. Institui horários, consultas agendadas, montei os grupos de atenção a saúde. A população reclamou inicialmente, a secretaria de saúde pedia soluções, que começaram a aparecer com dois meses. Nãos e gastava tanto com medicações, pois tínhamos o controle da necessidade da população, a conversa de uma hora com adolescentes se descobriu o consumo de drogas, inclusive utilização de seringa retirada do lixão local. Isso fez com que programássemos ações voltadas para as drogas, incluindo em produção e melhorando a qualidade da assistência. As ações foram desde ações individualizadas até ações a nível ecológico e de gestão de resíduos do serviço de saúde.

Assim posso ousar dizer que a produção é conseqüência da implementação correta dos conhecimentos, da ética e demais aparatos que nos levam a qualidade. Seria até incoerente falarmos de qualidade se não há produção, a qualidade é um adjetivo vindo obrigatoriamente de algo produzido, e a humanização a utilização dos conhecimentos adquiridos para o cuidar, no caso do texto anterior coloquei como ilógico falar em humanização, se as mudanças que tiveram não foi desconsiderar o homem como tal e lidar com ele como animal, ou objeto.

Os profissionais se perderam nesse meio de definições de qualidade, produção, aliado às mudanças no sistema de saúde, que até hoje são mal interpretados e desenvolvidos pelos profissionais. Aqui cabe destacar a questão do ensino, da consciência de cada profissional, e assim como as ações de cada um.

A culpa do sistema é bem inferior a nossa própria culpa, a pressão que sentimos deste é apenas a tradução da importação de conhecimentos, de modelos, sem a mínima adaptação para a nossa realidade (eis aí a Reforma Psiquiátrica que não nos deixa mentir), frente ao que aprendemos. Sendo assim o profissional que fica estagnado em reproduzir conhecimentos de manuais, sem pensar e cogitar alternativas e “saberes” ficará eternamente sob pressão.