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segunda-feira, 18 de maio de 2009

Sapato preto



Todos os dias ele ficava parado à janela no fim da tarde, observando aquela linda mulher, de roupas simples, pouco ousadas, mas com muito glamour, passar com seu sapato preto baixo, nem o som dos saltos se ouvia. Ora ela trazia nas mãos livros, ora alguma pasta. Às vezes, sentava na praça em frente a sua casa, lia algo e se ia após o pôr do sol, outras passava, afagava uma flor e continuava seu percurso

O homem ficava ali, a observar movimentos dela, durou alguns meses, sem nunca ousar ir até lá e dar um oi, ou um boa tarde que fosse. Às vezes, dependendo do local onde ela se sentava, podia ver que parava a leitura e ficava com o olhar distante, como se seu pensamento vagasse por aquele ambiente.

Certo dia apareceu no local um mendigo, que começou a se abrigar em um cloreto que havia na praça, que por sua vez parecia mais abandonada, se não fosse aquela moça a povoar todo fim de tarde nos dias de semana.

No primeiro dia ela apenas observou o homem, no segundo levou-lhe biscoitos, e a cada dia lhe levava algo, na época do frio lhe levou agasalhos, cobertor e colchonete. Aquela atitude dela mexia com o homem que a observava da janela, intrigava-o, a cada dia desejava para ele mesmo aqueles cuidados.

A moça e o mendigo passavam horas conversando, a noite caía, e o homem ia trabalhar, e os dois continuavam ali conversando, riam, e liam juntos. Ele descia a rua olhando para trás, nem um aceno, nem um olhar em sua direção era lançado pela moça, que ficava entretida com o mendigo.

Ficava a noite a pensar naquela moça. Queria-a pra ele, mas como? Decidiu então que no dia seguinte iria abordá-la de qualquer jeito, mas ela não aparecera. Perguntou ao homem que agora povoava a praça por ela, mas lhe respondeu que nada sabia dela, e ofereceu-lhe um livro para ler, que  recusou imediatamente, voltando para casa cabisbaixo com o pensamento dando voltas: onde encontrar aquela mulher.

Algum tempo se passou e a imagem dela se distanciava da sua mente, vindo à tona somente quando via aquele mendigo, por muitas vezes o repugnava, desviava dele cada vez que vinha em minha direção ou batia a sua porta pedindo comida ou oferecendo um livro.

Revoltado com a postura daquele homem, pela ousadia dele em bater à sua porta e vir oferecer um livro, chegava a insultá-lo, tinha vontade de bater, até matá-lo. Pensava, por vezes, quem era ele para lhe despertar do sono, do seu descanso diário, trabalhara a noite toda e vinha um marginal lhe acordar?


Certo dia foi mais cedo para o trabalho, haveria uma seleção de nova dançaria para a boate, e quando se sentou à frente do palco não acreditou no que via. Era aquela moça recatada da praça, à sua frente vestida com um maiô vermelho com paetês, um penacho na cabeça pronta para começar a dançar.

Seus olhos se fixaram aos dela, e fez sinal para que ela começasse. Quase não acreditava no espetáculo que assistia. Assim que terminou sua apresentação lhe informou que estava contratada e que poderia começar aquela noite. Ela agradeceu, saiu rápido. E em poucos minutos já estava no salão se despedindo e falando que voltaria mais tarde. Informou-lhe que ao chegar o procurasse para acertarem o contrato de trabalho, algo que ela já havia sido informada antes.

A noite chegou ela se apresentou e ao final ele a chamou ao escritório, era ali que ela finalmente seria dele, inicialmente trataram dos assuntos burocráticos, os quais ela imediatamente aceitou, e disse que estava sem muita opção, pois perdera o emprego e era sozinha na vida. O homem então pediu uma bebida para os dois e começaram a conversar, criando todo um clima para que ela se entregasse a ele. Trancou a porta, os funcionários do local sabiam que quando isso acontecesse não eram para interromper e podiam ir embora sem incomodá-lo

A certa altura pediu que ela dançasse para ele, e imediatamente ela retirou o roupão sensualmente e iniciou a dança até ir parar em seu colo, de frente pra mim, lhe dando um longo e demorado beijo, quase não podia acreditar. Ela então era dele! Pegou-a no colo e a colocou no sofá e ali se entregaram um ao outro.

Ela levantou-se, pegou mais duas taças de vinho e se juntou a ele, brindaram, cada um tomou alguns goles, ela o deitou no sofá, derramou um pouco de vinho nele e tomou o vinho derramado nele, passando a boca em todo o percurso feito pela bebida.

Depois disso ele não pode ver mais nada, quando acordou já estava em uma delegacia, atrás das grades e uma pessoa a sua frente, fora das cela.

Sentado em uma cadeira, apoiado nas costas, e somente a grade os separando, atordoado perguntou o que acontecia, o homem num sorriso, lhe ofereceu um livro, ele pegou e pode ler o título “ A menina má”. Olhou aquele homem a sua frente e o reconheceu, era o mendigo que vivia na praça a frente da sua casa. Ele balançava a cabeça tentando organizar os seus pensamentos.

O homem então se apresentou como César, disse que era investigador e há muito tempo estava na cola daquela moça que usa vários nomes, que ela vivia de golpes a várias pessoas, que tentou alertá-lo com o livro que continha um bilhete sobre aquela moça, mas ele sempre recusou.

Explicou que ela o envolveu, roubou tudo o que pode, dinheiro e documentos que estavam no cofre da boate, objetos de valor da, fez saques no banco e que agora estaria certamente atrás da próxima vítima.

Infelizmente ela havia desaparecido. Na noite do crime ele desistiu de esperar ela voltar, e foi para a casa a noite tentar novas pistas dela.

Quando o homem questionou porque estava preso, César explicou que a polícia foi acionada por um funcionário que chegou pela manhã na boate para receber fornecedores e viu muitas coisas reviradas e o tal homem caído no chão do escritório. A polícia  encontrou vários documentos e anotações do trafico e prostituição que acontecia no local, que também já era fruto de investigação de colegas. E que estava ali apenas pra saber se ela deixara alguma pista com ele, algum lugar que ela gostaria de ir, algo do gênero.

O homem respondeu que a única coisa que lembrava foi ela ter dito que iria a um almoço beneficente no próximo domingo e não poderia trabalhar no sábado, pois ajudaria nos preparativos.

O investigador levantou, e o homem perguntou se ele iria tirá-lo dali, César sem olhar para trás respondeu que não era caso do seu departamento.

No domingo César então estava lá no almoço, e logo avistou a moça bem vestida e com os seus sapatos pretos, e foi em sua direção.

- Olá doutor, muito trabalho? Disse-lhe esboçando um sorriso.

- Um dia te pego. Respondeu César em um largo sorriso e levantando um copo de chopp em um brinde, e saindo em qualquer direção.