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segunda-feira, 25 de maio de 2009

Deus, deus sou eu!

Certa vez apareceu na praça onde eu vivia uma moça, ainda jovem, recém saída da adolescência, aos prantos. Sentou-se em um banco e com o rosto apoiado nas mãos sobre as pernas chorava compulsivamente.

Aproximei-me dela e perguntei se poderia ajudá-la. Ela apenas balançou a cabeça negando, e acrescentou que se nem Deus podia ajudá-la ninguém mais era capaz.
Hesitei em perguntar o que acontecia, mas não pude me conter em perguntar qual deus ela esperava que a ajudasse.

Ela se levantou, e em tom de revolta e tristeza disse entre lágrimas, e rodando em volta de si mesma:

- Esse Deus que dizem que é misericordioso, o Deus de compaixão, consolador, o todo poderoso, que protege a seus filhos. Onde ele está que deixa uma filha sofrer, que deixa acontecer tantas coisas ruins a essa filha, por que sou renegada por ele?

- Há tantas pessoas que sofrem no mundo, será que esse deus que você procura seria tão mau assim a ponto de excluir tanta gente, ou pelo menos esquecer. Talvez ele esteja ocupado com quem realmente lhe interessa – disse eu cruzando os braços e ficando impassível à situação de desespero dela.

Andando de um lado para o outro, respondeu-me:

- Talvez Deus só se interesse pelos grandes e poderosos, para os que mentem e pisam nas pessoas, e eu que creio me abandonas por que será?

E num grito questionou:

- Deus onde está você que não vê meu sofrimento, não me ajuda?

Eu poderia simplesmente virar as costas e deixar ela no disparate de questionamentos, mas não poderia a oportunidade de ajudar aquela moça, e tão pouco d provocar nela a verdadeira reflexão do que era deus e a vida. Vendo-a sentar-se no banco de pedra e debruçar-se nas costas do mesmo e voltar a chorar, lhe falei:

- Sabe, quando era pequenino eu ia à igreja semanalmente com minha mãe, e lá ouvia que deus está em todas as coisas, e que somos imagem e semelhança, além disso, o sacerdote ensinava que deus nos fala através de sinais. Talvez seja esse seu problema compreender a amplitude dessas palavras. Você espera o que, um homem com uma túnica branca, talvez um cajado nas mãos, cabelos e barba longos e brancos, que te pegue nos braços e vá onde você quiser para ele resolver seus problemas?

Ela levantou a cabeça escondida entre os braços, e fitou-me, e antes que pudesse falar qualquer coisa continuei:

- Deus está em todas as coisas, logo o consolo que ele pode te dar hoje, é as costas desse banco, como se fosse ombro dele. Se formos imagem e semelhança dele, talvez alguma pessoa possa te ajudar, quem sabe até você mesma. Deus está te dando um ensinamento neste momento, de que se há problema, você está errando o caminho, e como saber qual a direção é a correta? Apenas tentando e aprendendo com os erros. OU você acha que deus é uma pessoa, que tem mais poder do que as outras, e que pode brincar conosco como se fossemos bonecos e a nossa vida, onde vivemos o seu parque de diversão?

A moça balançava a cabeça atônita, mas impedida de proferir qualquer palavra, eu podia sentir que seus pensamentos borbulhavam.

- O deus que temos é um deus criador, que deu origem à vida, à natureza, ao universo, que está em todas as coisas. Como se fosse algo muito denso, complexo e a dada altura não se suportou mais se dissolvendo e se transformando em várias coisas, estando no meio de nós e em tudo o que vemos. Por isso temos a condição de dar rumo à vida, de resolver problemas. Não adianta andarmos de muletas, justificando cada acerto e cada erro a um deus, esperando a misericórdia para sermos felizes. Nós é que comandamos nossas vidas, somos deuses de nós mesmos, somos os nossos consoladores. Devemos ainda ter a consciência de que a leis do universo também foram derivadas desse algo que se dissolveu em várias outras coisas, assim é com a lei de causa e efeito: ninguém passa por uma dificuldade porque um todo poderoso quer que ela passe por uma provação, mas por que falhamos em alguma parte, quer seja convívio com pessoas que não tem compatibilidade conosco, ou porque enganamos aos outros e anos mesmos para nos beneficiarmos em algo, ou simplesmente porque não prestamos atenção, não para mos para refletir sobre as situações.

O olhar dela já estava distante, parecia que minha voz agora chegava até ela como um eco. Nesse momento acreditei que fosse o momento de estimulá-la.

- Ei anime-se você, só você pode ser sua própria consoladora, e ser misericordiosa com você mesmo nãos e enganando mais. Acreditar em algo não é pecado nem errado, mas fazer dessa crença escora, e exigir dela que resolva seus próprios problemas é enganar-se a se mesmo, é desejar que outro te de a sua própria felicidade, é chegar a vitória sem luta, e somente na luta que conseguimos aprender o básico para a manutenção da nossa felicidade.

Ela se levantou, com um ar confiante estampado em seu rosto, abraçou-me e se foi a passos apressados, quase que numa corrida. Ainda tentei falar-lhe, mas ela era mais rápida, apenas gritei:

- Aonde você vai?

Ela virou-se, mas continuando andando, e respondeu-me:

- Eu volto!

sábado, 23 de maio de 2009

Humanizar o que é do humano?

Um tema que sempre me inquietou foi a humanização da assistência na enfermagem. Independente de qualquer conceito que dê a esta “nova” tendência da prática em saúde, sempre achei incoerente falar em humanizar o que já é para o ser humano. Isto se traduz para mim de uma forma a entender que as antigas práticas não eram para humanos, talvez para animais.

Ora se profissionais da saúde estudam o cuidar do ser humano, não tem nada que humanizar, pois já é para o homem. Acredito que o que se busque é o resgate da ética, da lógica e do racional, mascarando com uma tentativa de “emocionalizar” estas práticas.

Nada contra essa emocionalização, mas sim contra o não reconhecimento do resgate do que se perdeu lá trás, com a mecanização da assistência, tanto no sentido tecnológico, como adestramento profissional, este entendido como sendo a prática repetitiva de reprodução de algum manual, e não atendendo a especificidade do cliente/paciente.

Quando falo em ética, lógica e racionalização não estou citando atividades de robôs, tão pouco na produção em massa como uma fábrica de bonecos, mas do desenvolvimento das atividades considerando o local de trabalho, a especificidade de quem se vai atender, o meio no qual ele se insere e o conhecimento técnico-científico do profissional. A soma desses quatro pilares forma a base da tão chamada humanização, que nada mais é do que cumprir aquilo que lhe é de competência, cumprir o que lhe é de responsabilidade nada mais é do que agir com ética.

Já a lógica e o racional ficam por conta do conhecimento técnico-científico a ser aplicado de forma a interpretar não só as necessidades do usuário que precisa de cuidados em saúde, mas, também, saber interpretar as informações por ele fornecida e da situação em si para a promoção da saúde. É ai que se insere o maior problema.

Geralmente essa sistematização de tentar humanizar o que já é destinado ao humano tenta singularizar as ações em saúde, de forma a fazer com que as práticas saem do universal para o singular, isto se contrapondo as novas políticas de saúde vigente que buscam a universalização, que por sua vez é entendida apenas como o direito de todos aos serviços de saúde.

A universalização deve ser entendida no sentido amplo, ou seja, entender que o indivíduo está inserido em um meio, e não só o que ele apresenta pode traduzir o meio, como pode acontecer do meio traduzir a especificidade do ser. Sendo assim, o conceito de universalização relacionada apenas a direitos se amplia para uma conceituação da inter-relação entre indivíduo e meio, levando assim a ampliação do conceito de integralidade.

Integralidade deixa de ser a relação entre serviços de atenção à saúde e ver o ser como um todo, passando a enfatizar a inter-relação social frente a manifestação da doença.

Vale agora uma reflexão sobre a humanização da assistência: Nas condições que o tema hoje é trabalhado, não seria uma forma mascarada de resgatar a negligência, a falta de ética e não utilização dos conhecimentos por parte de profissionais, que por sua vez poderiam estar em busca muito mais de algo pessoal do que social, talvez seja resultante de um egocentrismo?

terça-feira, 19 de maio de 2009

Juiz de Fora em luta antimanicomial?

Descartes certamente está se revirando no túmulo, onde jaz tranquilamente há séculos, e neste último dia dezoito de maio revirou-se no túmulo por reprovação à luta antimanicomial da cidade de Juiz de Fora.

Primeiramente pelo lema escolhido – Sinto, logo existo – romper, se contrapor da forma mais incoerente e ignorante a dualidade cartesiana do respectivo filósofo. Até porque pesquisas e estudos na área da neurociência ainda tenta provar que esta dualidade inexiste. Mas até que se finalizem estudos, tudo se torna especulativo, ou apenas pontos de vista para se partir para estudos mais profundos.

E depois se vislumbrarmos a quebra da dualidade cartesiana frente a quebra de antigos paradigmas que circundam a saúde mental esbarramos novamente na própria dualidade cartesiana, que mostra que apesar do meu corpo são, minha mente não está: o Mundo externo que a luta antimanicomial me apresenta não é o mundo de minha mente.

Descarte ainda reforçou que há coisas fora da mente que podem ser matematicamente determinadas. Exemplifico isto com o tema do evento supracitado. Ora eu sinto, e nem mesmo esse sentir fez sensibilizar profissionais que hoje levantam a bandeira da respectiva luta, fazendo=-me não existir para eles.

Eu senti falta do atendimento, da acolhida da luta antimanicomial, senti falta ( e ainda sinto) da ligação a espera da marcação de uma consulta que já leva quatro anos, de uma vaga no CAPS não só como paciente, mas como profissional, ou um membro da sociedade buscando socializar-me com as pessoas acometidas por transtorno menta grave.

Afinal, para muitos profissionais da luta antimanicomial de Juiz de Fora doença mental são só casos graves de esquizofrenia e dependência química, os demais não sei como denominam, mas certamente, na mente deles não existem

Outro titulo curioso foi da exposição de arte: crio, logo existo. Uma pena que só existem pacientes do CAPS que criam, mesmo com criações de atividades quase que impostas por uma cooperativa, associação, mascaradas de tratamento. Pois a minha criação não foi sequer reconhecida pelos mesmos profissionais que foram às ruas dia dezoito panfletar contra o preconceito.

Logo concluo que só existem aqueles que criam sob a supervisão desses profissionais, pelas atividades por eles coordenadas. Pois o meu pensar e poder de criação foi simplesmente negado e até marginalizado pelos mesmos. Não existo porque penso, mais uma vez contradiz Descartes a luta antimanicomial juiz de forana.

Infelizmente a luta antimanicomial aqui nesta cidade é um engodo, que faz com que números sejam inclusive ocultados de reportagens, pois a Lei que ampara esta luta exclui os transtornos mentais leves, tornando os pacientes acometidos pelos mesmos pessoas não existentes para profissionais dos serviços substitutivos, que por sua vez insistem em ressocializar o paciente advindo de hospitais psiquiátricos apenas com outros pacientes, familiares e profissionais do meio.

Lembram do restante da sociedade apenas em dois momentos: na hora de pedir apoio e na hora de das comemorações. Infelizmente esses momentos não são adequados para socializar, pois há um apelo de vítima muito grande, e a única coisa que pessoa acometida por transtorno não é, é ser vítima de uma doença, mas sim de preconceito, que muitas vezes são impostos pelos próprios profissionais.

Ouso dizer que profissionais da reforma psiquiátrica, ou melhor, alguns que atuam na luta da reforma psiquiátrica, pelo fechamento dos hospitais, na famosa lutam antimanicomial são os maiores precursores do preconceito, haja vista que delimitam quais transtornos devem ser cuidados, esquecem-se do projeto terapêutico e tempo de permanência no tratamento no CAPS, levantam a bandeira para fechar hospital psiquiátrico, mas esquecem de pedir capacitação e melhores condições de atendimento e vagas em hospital geral, medicação suficiente para atender a toda demanda de saúde mental fornecida pelo SUS.

Isso sem falar que se esquecem da integralidade tanto do Ser como no Ser, além da Integralidade como princípio do SUS. Dizem ter pouco CAPS para atender à demanda, mas CAPS não é um tratamento permanente, a longo prazo para ninguém, a atenção básica sim é, logo se um paciente ficar um ano sendo atendido continuamente e não só a nível ambulatorial no CAPS, significa que este serviço está desfocado da sua responsabilidade.

Lutar por mais CAPS sem o apoio de uma atenção básica, a meu ver é lutar por benefício próprio profissionalmente falando, um egocentrismo descarado a quem pensa e estuda o assunto.

Aplaudir que um paciente desenvolva habilidades capazes de fazê-lo cantar, pintar, tricotar, é muito gratificante, mas isto não é socializá-lo, desenvolver autonomia e habilidades, pois como sabemos no Brasil arte é fútil, ou na melhor das hipóteses supérfluo.

Lutam por ajuda de custo para o paciente, mas esquecem que doença mental não é de todo incapacitante, e se perdem quando um paciente diz que não quer nada demais, apenas um lugar ao sol do mercado de trabalho.

Lutam por conscientização, mas iludem aqueles que conseguem uma cadeira universitária com discursos utópicos, falaciosos e surreais.

Falar em saúde mental não é sentir, e tão pouco criar, é apenas pensar, pensar em saúde, pensar na integralidade, pensar em largar as amarras existenciais egocentristas e passar a ver o outro como um Ser pensante, um ser que mesmo que lhe fuja a razão é um ser racional, e não uma coisificação profissional

Bom, encerro aqui mais um devaneio meu, sim talvez se eu falar que seja um delírio eu passa a existir para esses profissionais que se dizem lutadores pelos direitos dos doentes mentais. Pois enquanto penso, para eles eu não existo.

Estive pensando entre a emoção e a razão

Se considerarmos o suicídio como um ato de emoção inespecífica, de instinto, porém a decisão em suicidar-se é sem dúvida uma decisão racional, afinal não se preocupa nem mesmo com o que os outros que ficarão irão sentir.

Se há ações que mesclam ora emoção ora razão, então as duas estão ligadas a tal ponto que uma não existe sem a outra. Razão é demarcada após um período de emoção qualquer que seja ela.

Sabe-se apenas que o instinto, uma emoção inespecífica, é anterior à razão, a primeira manifestação da razão se dá com o passar da maturidade emocional e física. Assim sendo, não seria a razão uma especialidade, especificação, amadurecimento da emoção?

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Desejos psiquiátricos.


Quisera eu ter a sanidade dos que dizem ser normal para compreender o que sentem por mim.

Quisera eu ter a condição de profissional são para propagar um ufanismo, ou pelo menos compreender o mesmo.

Pudera esses profissionais passar pelo clivo da doença mental, nada de esquizofrenia ou dependência química, para compreender a dimensão a verdadeira escravidão a mental.

Pudera eles entender o que é pedir ajuda e os outros virem com discursos prontos de auto ajuda, ou definições técnico-literárias.

Pudera entender que ressocializar não é só estar em meio social, que desmanicomizar não é estar fora de hospital psiquiátrico.

Que Deus ou alguma força pensante ou energética da natureza possa sim conscientizar, pois a nossa vã filosofia é interpretada como devaneios alucinadores delirantes.

Que nossa capacidade de autonomia seja interpretada mais do que uma expressão emocional e passe a ser entendida como real capacidade.

Que os mistérios da mente continuem obscuros, pois o pouco que se revela torna muitas pessoas acometidas por transtornos mentais em pessoas fúteis, preguiçosas que só querem chamar atenção, ou pior perigosas e marginalizadas.

Que as políticas sejam realmente por direitos de pessoas acometidas por todo e qualquer transtorno mental, e não apenas a profissionais que querem mais e mais reconhecimento.

Que os tratamentos aconteçam realmente, não seja cronificadores, e tão pouco marco de exclusão.

Que a luta comece não por mudanças de paradigmas, mas de consciência, de ética, de moral.

Dia 18 de maio – dia da luta anti-manicomial


Dia 18 de maio de comemora o dia da Luta anti-manicomial, o que não sintetiza fim do tratamento psiquiátrico, em absoluto. Trata-se apenas da inversão de uma modelo de atenção á doença mental segregador, para outro que visa primordialmente o desenvolvimento da autonomia e habilidades das pessoas acometidas por transtornos mentais, com isso resgatando o papel de cidadão das mesmas. Para que a proposta seja atendida, criou-se propostas de serviços substitutivos aos manicômios, e redução do tempo de internação psiquiátrica, e que esta seja preferencialmente realizada em hospital geral. No entanto, o que muitos comemoram hoje é na realidade mais um engodo político, pois o que observamos são privilégios para uma classificação de diagnóstico, ficando outros a mercê da própria sorte, além de serviços substitutivos descaracterizados, mantendo pacientes há mais de um ano em tratamento nos mesmos, serviços de saúde desintegralizados, hospitais gerais sem o mínimo de condições para receber a nova demanda, sem contar das condições familiares em receber novamente, ou manter esses pacientes, no convívio diário. É compreensível que a luta anti-manicomial lute pelo fechamento dos manicômios, mas não do fechamento de hospitais psiquiátricos, que por sua vez devem sim reduzir leitos, rever projetos terapêuticos, criar juntamente com as novas propostas uma rede de atenção à saúde mental realmente eficiente e eficaz, que atenda a todas as demandas. Por outro lado, os serviços substitutivos devem rever suas propostas, projetos terapêuticos, e principalmente responsabilidade social, pois enquanto colocam-se bandas nas ruas em comemoração ao dia da luta anti-manicomial, vários pacientes estão sem atendimento, sem atenção, sofrendo preconceito e se tornando não só escravos de uma sociedade, mas escravos da própria mente. É preciso, e urgente, perceber que doença mental existe, e que não é apenas a esquizofrenia e dependência química, e que as necessidades de uma pessoa acometida por qualquer transtorno mental vão além de medicação e atividades lúdicas. Acredito sim, que antes de acabar com os manicômios deve-se acabar com a politicagem, acabar com o estigma da doença mental, o preconceito, e falácias de uma lei que só tem a comemorar quem consegue ser respaldada pela mesma, o que no Brasil significa menos de 10% da população alvo. Enquanto consciências continuarem no ufanismo ilusório político estará apenas mudando de sistema cronificador: do hospitalocênctrico para o CAPScêntrico. Que esta data em 2009 não seja a repetição dos anos anteriores, mas o despertar da consciência da população para a verdadeira integralidade em saúde mental.

Sapato preto



Todos os dias ele ficava parado à janela no fim da tarde, observando aquela linda mulher, de roupas simples, pouco ousadas, mas com muito glamour, passar com seu sapato preto baixo, nem o som dos saltos se ouvia. Ora ela trazia nas mãos livros, ora alguma pasta. Às vezes, sentava na praça em frente a sua casa, lia algo e se ia após o pôr do sol, outras passava, afagava uma flor e continuava seu percurso

O homem ficava ali, a observar movimentos dela, durou alguns meses, sem nunca ousar ir até lá e dar um oi, ou um boa tarde que fosse. Às vezes, dependendo do local onde ela se sentava, podia ver que parava a leitura e ficava com o olhar distante, como se seu pensamento vagasse por aquele ambiente.

Certo dia apareceu no local um mendigo, que começou a se abrigar em um cloreto que havia na praça, que por sua vez parecia mais abandonada, se não fosse aquela moça a povoar todo fim de tarde nos dias de semana.

No primeiro dia ela apenas observou o homem, no segundo levou-lhe biscoitos, e a cada dia lhe levava algo, na época do frio lhe levou agasalhos, cobertor e colchonete. Aquela atitude dela mexia com o homem que a observava da janela, intrigava-o, a cada dia desejava para ele mesmo aqueles cuidados.

A moça e o mendigo passavam horas conversando, a noite caía, e o homem ia trabalhar, e os dois continuavam ali conversando, riam, e liam juntos. Ele descia a rua olhando para trás, nem um aceno, nem um olhar em sua direção era lançado pela moça, que ficava entretida com o mendigo.

Ficava a noite a pensar naquela moça. Queria-a pra ele, mas como? Decidiu então que no dia seguinte iria abordá-la de qualquer jeito, mas ela não aparecera. Perguntou ao homem que agora povoava a praça por ela, mas lhe respondeu que nada sabia dela, e ofereceu-lhe um livro para ler, que  recusou imediatamente, voltando para casa cabisbaixo com o pensamento dando voltas: onde encontrar aquela mulher.

Algum tempo se passou e a imagem dela se distanciava da sua mente, vindo à tona somente quando via aquele mendigo, por muitas vezes o repugnava, desviava dele cada vez que vinha em minha direção ou batia a sua porta pedindo comida ou oferecendo um livro.

Revoltado com a postura daquele homem, pela ousadia dele em bater à sua porta e vir oferecer um livro, chegava a insultá-lo, tinha vontade de bater, até matá-lo. Pensava, por vezes, quem era ele para lhe despertar do sono, do seu descanso diário, trabalhara a noite toda e vinha um marginal lhe acordar?


Certo dia foi mais cedo para o trabalho, haveria uma seleção de nova dançaria para a boate, e quando se sentou à frente do palco não acreditou no que via. Era aquela moça recatada da praça, à sua frente vestida com um maiô vermelho com paetês, um penacho na cabeça pronta para começar a dançar.

Seus olhos se fixaram aos dela, e fez sinal para que ela começasse. Quase não acreditava no espetáculo que assistia. Assim que terminou sua apresentação lhe informou que estava contratada e que poderia começar aquela noite. Ela agradeceu, saiu rápido. E em poucos minutos já estava no salão se despedindo e falando que voltaria mais tarde. Informou-lhe que ao chegar o procurasse para acertarem o contrato de trabalho, algo que ela já havia sido informada antes.

A noite chegou ela se apresentou e ao final ele a chamou ao escritório, era ali que ela finalmente seria dele, inicialmente trataram dos assuntos burocráticos, os quais ela imediatamente aceitou, e disse que estava sem muita opção, pois perdera o emprego e era sozinha na vida. O homem então pediu uma bebida para os dois e começaram a conversar, criando todo um clima para que ela se entregasse a ele. Trancou a porta, os funcionários do local sabiam que quando isso acontecesse não eram para interromper e podiam ir embora sem incomodá-lo

A certa altura pediu que ela dançasse para ele, e imediatamente ela retirou o roupão sensualmente e iniciou a dança até ir parar em seu colo, de frente pra mim, lhe dando um longo e demorado beijo, quase não podia acreditar. Ela então era dele! Pegou-a no colo e a colocou no sofá e ali se entregaram um ao outro.

Ela levantou-se, pegou mais duas taças de vinho e se juntou a ele, brindaram, cada um tomou alguns goles, ela o deitou no sofá, derramou um pouco de vinho nele e tomou o vinho derramado nele, passando a boca em todo o percurso feito pela bebida.

Depois disso ele não pode ver mais nada, quando acordou já estava em uma delegacia, atrás das grades e uma pessoa a sua frente, fora das cela.

Sentado em uma cadeira, apoiado nas costas, e somente a grade os separando, atordoado perguntou o que acontecia, o homem num sorriso, lhe ofereceu um livro, ele pegou e pode ler o título “ A menina má”. Olhou aquele homem a sua frente e o reconheceu, era o mendigo que vivia na praça a frente da sua casa. Ele balançava a cabeça tentando organizar os seus pensamentos.

O homem então se apresentou como César, disse que era investigador e há muito tempo estava na cola daquela moça que usa vários nomes, que ela vivia de golpes a várias pessoas, que tentou alertá-lo com o livro que continha um bilhete sobre aquela moça, mas ele sempre recusou.

Explicou que ela o envolveu, roubou tudo o que pode, dinheiro e documentos que estavam no cofre da boate, objetos de valor da, fez saques no banco e que agora estaria certamente atrás da próxima vítima.

Infelizmente ela havia desaparecido. Na noite do crime ele desistiu de esperar ela voltar, e foi para a casa a noite tentar novas pistas dela.

Quando o homem questionou porque estava preso, César explicou que a polícia foi acionada por um funcionário que chegou pela manhã na boate para receber fornecedores e viu muitas coisas reviradas e o tal homem caído no chão do escritório. A polícia  encontrou vários documentos e anotações do trafico e prostituição que acontecia no local, que também já era fruto de investigação de colegas. E que estava ali apenas pra saber se ela deixara alguma pista com ele, algum lugar que ela gostaria de ir, algo do gênero.

O homem respondeu que a única coisa que lembrava foi ela ter dito que iria a um almoço beneficente no próximo domingo e não poderia trabalhar no sábado, pois ajudaria nos preparativos.

O investigador levantou, e o homem perguntou se ele iria tirá-lo dali, César sem olhar para trás respondeu que não era caso do seu departamento.

No domingo César então estava lá no almoço, e logo avistou a moça bem vestida e com os seus sapatos pretos, e foi em sua direção.

- Olá doutor, muito trabalho? Disse-lhe esboçando um sorriso.

- Um dia te pego. Respondeu César em um largo sorriso e levantando um copo de chopp em um brinde, e saindo em qualquer direção.